terça-feira, 10 de dezembro de 2013

- Ele atua em filmes eróticos. Já deixou muita gente de boca aberta com a sua capacidade na cama, e ainda continua com a mão na massa – complementa.
- Entendo... – respondo não surpresa com isso.
- Pela fúria de Léo ontem ao telefone posso até dizer que ele viu o senhor Colbey na tevê – supõe com um sorriso brincando em seus lábios.
E viu, aliás, eu também vi, e por um momento até me excitei – completo inconscientemente. Foi um pecado o que eu fiz, eu sei.
- O senhor Colbey é o bicho nos filmes... Ele já foi a fantasia de muitas mulheres e não duvido que continue sendo, além do quê, ele... - Morgan começa a me detalhar a vida sexual desse tal “senhor Colbey”. Fico encabulada. Mas só um minuto: como Morgan sabe tanto sobre o senhor Colbey? Ele assiste aos filmes dele? Por um momento me assusto. De fato, seria engraçado se ele o fizesse. Morgan, parecendo adivinhar o que estou pensando, me diz:
- Uma vez peguei a minha mãe assistindo um filme dele... – comenta um pouco mais sério agora. Acha que me engana.
- Entendo... Deve ter sido desagradável...  – respondo de modo debochado .
Morgan é ruivo e tem olhos verdes. Eles são vibrantes. Está suado e posso ver o seu abdômen definido.
De repente, sinto vontade de ir ao banheiro e quando me dou por mim, fico furiosa ao ver Ellie nos braços dele. Quem você pensa que é para pegá-la no colo, Morgan? – penso enciumada. Mas ela está gostando. E também, no lugar dela, eu não acharia tão ruim estar cercada por braços fortes como os de Morgan.Você está gostando, né, sua cara de pau? Não posso levá-la comigo. Já dei muita sorte por ninguém censurar a minha visita devido a Ellie.
Decido confiar em Morgan e deixo-a sob os cuidados dele. Às vezes, não sei... acho que ele é afetuoso demais com ela. Mas prefiro confiar. É por cinco minutinhos.
                No banheiro, lavo as minhas mãos e arrumo o meu cabelo em frente ao espelho. Ao voltar, o meu coração quase pula para fora. É o feito de ver Léo por perto. Ele está a alguns metros, ou melhor, do outro lado do ginásio segurando a bola que o time estava usando para jogar. Ele parece estar arrumando a bagunça deles, e além do mais, não está uniformizado. Acho que veio apenas para arrumar a bagunça já que não pôde treinar. É tão fofo da parte dele. Por isso que pretendo ter paciência e dar bastante para ele. Dar amor, afeto...
- Léo, Léo! – digo ao chegar perto.
- Magie... você por aqui? – pergunta ele surpreso, mas tentando manter-se durão.
- Desculpa por ontem... Estive preocupada com você – saliento com o coração na mão.
- O meu pai é um completo idiota, mas ele não importa. Vem cá – ele me puxa e me abraça. Me perco nesse abraço.
- Eu te amo – declaro ao perceber o quanto fui boba.
- Eu também, Magie. Me desculpa. Eu também disse coisas horríveis...
Depois da reconciliação, infelizmente, ele observa:
- Ainda bem que você veio sozinha.
- Não estou sozinha... Ellie está comigo – respondo receosa, porém, antes de deixar Léo embravecer, esclareço: - Ela não fez nada fora do normal. E o mais importante: não destruiu o campus. Foi um amor.
- Menos mal, mas e então... Onde ela está? – pergunta arqueando a sobrancelha.
- Quando fui ao banheiro, a deixei sob os cuidados de Morgan.
- Ainda bem que ela é esperta. E brava – lembra ele.
- Por que ela precisaria ser esperta e brava? – indago confusa.
- Rumores dizem que Morgan já praticou zoofilia com um coala há dois anos aqui na universidade. Ele só não foi preso porque pagou fiança.
Viu, sua estúpida? Você sentiu algo errado quando Morgan segurou Ellie e mesmo assim ignorou. Desnaturada!
- Mas são apenas rumores. Duvido muito que alguém seja capaz de transar com um animal – finaliza incrédulo.
Ele acha isso tão impossível que aperta o meu nariz e pergunta:
- Você está me ouvindo, Magie?
Quando dou por mim mesma, sinto o meu coração bater acelerado demais. Nervosa e temerosa, respondo aos sussurros:
- Ele estava acariciando Ellie de um jeito tão afetuoso... Meu Deus, ela está correndo perigo! Será que... Será que... Não... Não... Será que ele quer fazer amor com a minha cadela? Nãããããão! – saio descontrolada pelo ginásio enquanto Léo corre atrás de mim me pedindo para ficar calma.

- Não me manda ficar calma! Ellie vai ficar traumatizada se ele encostar nela com segundas intenções! – grito loucamente. 

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Acordo às 09:30 da manhã. É sábado e hoje trabalho somente à tarde. De segunda a sexta-feira trabalho das 08:00 às 16:00 horas, e nos sábados, um sim e outro não. Os raios do sol tocam o meu corpo. Essa é uma das sensações mais hospitalares de Arizona.
Ao sair de casa, torno a me sentir desconsolada ao não ver Léo. Um pensamento confortante me abraça: ele deve estar no ginásio treinando com o seu time! Me animo. Antes de ir atrás dele, me dirijo ao pet shop para buscar Ellie. Estou sentindo falta dela, além do quê, ela vai me ajudar a acabar com a minha ressaca emocional.
- Oi, meu amor! – abraço-a com carinho.
Ela está feliz, linda e cheirosa. Está tentando me“abraçar” também. Posso ver que sentiu saudade. Por que eu te troquei por uma conexão de almas fracassada? Me desculpa. Perdoa a mamãe... digo baixinho para a moça que está perto não me ouvir.
- Obrigada, é... Amanda, né?
- De nada. O meu nome é Giovana – ela me corrige com um tom simpático na voz.
Ela deve estar me achando uma anta.
                 Ao ajeitar Ellie no banco do carro e me ajeitar também, tento lembrar onde fica o ginásio que Léo treina. Ouvindo It’sheartache de BonnieTyler, reflito sobre a minha necessidade de me desculpar com Léo. Vasculho a fundo a minha mente e lembro que ele me dissera uma vez que treinava no ginásio da universidade aqui da cidade. Dou sorte já que não fica muito longe. Me concentro e tento resgatar das minhas memórias o nome do time de basquete dele. É, deixe-me ver... Bola Jazz? Roxo Jazz? Bola dos Apagões? Ops! É Clube Jazz! Da onde eu tirei “Bola dos Apagões”? Só pode ser a minha ressaca emocional fazendo efeito... Sorrio. Não acho que basquete tem muito a ver com Jazz, mas enfim.
Não demoro para encontrar a universidade. É grande e tem muitas árvores e flores em sua entrada, além de um letreiro esculpido em uma placa quadrada de granito que diz Universidade do Estado de Arizona.
Tiro Ellie do carro e nós duas caminhamos próximas ao campus. Ela parece uma madame. Ninguém está me vendo, e eu não vejo ninguém. Espero que eu continue com essa sorte. Ellie para por um momento me intrigando. Não, não, não faça cocô aqui, Ellie! – digo. Mas ela faz a minha tensão passar ao tentar se coçar. Ufa. Encontro o ginásio.
Antes de entrar, ouço o barulho de bola quicando. Isso é um bom sinal. Ao entrar, examino o inacabável salão cheio de bancos e me encontro triste e deprimida ao ver o time de Léo treinando. Estou triste porque Léo não está. Antes de dar meia-volta, um homem me assusta ao me dar um enérgico oi.
- Me chamo Morgan – diz ele.
- Oi, Morgan. O meu nome é Magie. Estou procurando por Léo – digo tentando esconder o meu rosto desconsolado.
- Léo, Léo... Ele não veio treinar hoje porque está resolvendo um problema com o pai – me explica.
- O senhor Colbey está com o gás todo – enfatiza com um sorriso brincando em seus lábios.

- O pai de Léo é um homem problemático? – pergunto cheia de curiosidade.

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Os três atores ainda transam compulsivamente, tendo como cenário daquela super produção, um faroeste vagabundo. Eles estão vestidos – ou quase vestidos -, a caráter. O tiozão está com um chapéu preto e um lenço vermelho no pescoço que o deixa incrivelmente sexy , além de estar cobrindo o seu peitoral musculoso apenas com um colete de couro preto. Posso parecer uma louca, mas se Léo estivesse fazendo amor selvagem comigo agora, não estaria transferindo o meu tesão para esse cowboy enérgico. As duas mulheres acho que estavam vestidas como cowboys só que de modo muito mais sensual antes de ficarem nuas. É difícil dizer porque não reparo em mulheres quando assisto a um filme erótico. Porém, observo que uma delas está somente de calcinha e a outra de calcinha e sutiã.
Léo levanta e desliga a televisão com raiva. Ao vê-lo movendo os seus braços e os seus músculos, me desfaço em mil pedaços pelo chão. Ele é um deus grego. Eu achava que um homem vendo duas mulheres se beijando e se tocando sentia-se mais excitado, só que fui contrariada. Assistindo o ator fogoso tomando conta da situação, o desejo que estava se apagando em mim renasce. E agora entendo o porquê de Léo não estar conseguindo animar o seu amiguinho: ver o cowboy metendo pressão nessas duas mulheres faz ele sentir-se intimidado. É claro! Ele está nervoso porque tem medo de não me satisfazer. Só pode ser isso. Bingo!
- Vem cá... – o convido com um sorriso safado nos lábios.
- Não vai rolar, Magie, mas não é nada com você, eu acho... – esclarece com um olhar duvidoso.
Uma tempestade de ódio parece pairar sobre mim após ouvir o “eu acho”. O meu sangue começa a ferver em meu corpo. Então o problema é comigo? É isso? Não poder ser... isso é humilhação.
- Você acha? – digo em tom ameaçador.
Sinto os meus olhos devorarem-no.
- Te trago até aqui, você come praticamente uma pizza inteira minha, me convida para assistir filme e não consegue levantar o seu maldito pênis e o problema é comigo?!!!! – grito histérica. Ah, ele me irritou.
- O cara dessa porcaria de filme que aposto que você vê todo o santo dia é o meu pai, Magie! – diz ele enfurecido, me fazendo ficar quieta.
- Opa... – acho que estou sem razão agora.
- Desculpa, mas não dá! – diz ele bravo, mas de forma doce.
 Léo se revela um homem furioso, mas amável, um paradoxo com efeitos sobre mim. Ele sai do meu quarto nu e eu me derreto.
Ele bate a porta calmamente. Não resisto e corro até a casa dele depois de me vestir. Não sei mesmo onde enfiar a minha cara. Tenho sorte de estarmos separados por um muro de um metro.
Estou totalmente nervosa e querendo fugir dessa situação. E se ele não me desculpar e continuar bravo comigo?
Aí você parte para outra, Magie – lança a minha mente.
Não... Léo é um deus grego. É mesmo. Porém, não é como os imbecis galinhas que já conheci. Ele tem sentimentos. É disso que eu preciso. E de sexo selvagem, óbvio.
Essas palavras me dão coragem para pressionar a campainha e esperar. Espero... Espero... E espero... Ninguém vai me atender. Sei que não tenho o direito de ficar irritada ou brava já que quem causou essa confusão toda fui eu mais uma vez.
De fato, não fico com raiva, mas triste. Léo talvez esteja ouvindo a minha respiração ofegante e receosa aqui desse lado, e me deixando sozinha de propósito. Que isso, Magie... Ele não te deixaria como uma tonta o esperando. Ele não é desse tipo. Ele tem coração. E você SABE disso.

Volto para minha casa e me dirijo à geladeira. Começo a comer um pote de sorvete para acabar com a minha depressão. Não resolve, porém, está uma delícia.                                                                                                
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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

07 de dezembro de 1996, Arizona, EUA

Desde aquela noite em que Léo me mandou aquela carta insinuando que eu queria torturar Ellie, brigamos centenas de vezes, mas agora ele está comendo uma pizza comigo. A gente se beijou na última vez que ele esteve aqui. É uma ironia essa vida. Ele até brinca com Ellie agora. Por algum motivo maior Léo tem medo de encostar em meu corpo abaixo da minha cintura. Quero dizer... duvido que ele seja virgem. Ele é sexy demais para isso. Preciso transar com ele. Nossas almas precisam se conectar.
Eu não podia deixar Ellie aqui e correr o risco de deixá-la atrapalhar essa conexão, então a levei a um pet shop aqui perto, aproveitando para fazer um banho e tosa. Dei um dinheirinho a mais para a dona de lá, e ela me garantiu que vai cuidar de Ellie até amanhã.
Léo está vestindo uma camisa laranja com o desenho de uma bola de basquete estampado na frente, e claro, um calção jeans azul claro. Estranho é o fato de essa bola ser roxa com tons de preto. Bolas de basquete não são laranjas? Ou eu estou tão por fora assim?
Ele me observa e logo esclarece que bolas roxas são comuns, só que menos conhecidas. Tenho um rápido mal-estar.                                                                                                                                          
- Você está bem, Magie?
- Desculpa... É que falar de bolas me deixa confusa... – respondo inocentemente.
 Ele sorri de modo evasivo.
- É...
- Rã rãm... Então... Eu sou jogador de basquete. Amo a adrenalina dos jogos – complementa ele.
Após comer dois pedaços da pizza, paro. Léo continua comendo. Ele sorri de vez enquando, e prefiro acreditar que a pizza serve como o combustível dele para atuar na cama – caso o contrário, terei um gasto financeiro horrível se continuarmos juntos. Ele diz que quer assistir televisão comigo. Está tímido, mas eu também. Acho que é pelo fato de estar em minha casa. Da próxima vez, prometo que vamos reverter o local do nosso encontro.
Um filme de comédia romântica está passando na TV. Concentrada, sorrio. Ele me envolve com os braços. E me beija. Um beijo diferente dessa vez. Melhor. Com pegada. O meu coração dispara: a conexão entre nós dois irá começar.
Lembro de Ellie. Droga... Por que eu lembrei dela? Me espanto.Volto a encarar Léo que tira o seu calção e a sua camisa. Ele vai me despindo aos poucos, e cada vez mais o meu tesão aumenta. Ele me beija pelo pescoço e agarra as minhas coxas com os seus braços fortes. Solto um gemido que soa como: demorou, mas está valendo a pena.

Quando estamos no ápice do momento, algo estranho acontece: aquela felicidade e emoção de Léo se perdem em meio a nossa conexão de almas. E somente nesse instante ouço gemidos vindos da televisão que me dão nos nervos: está passando um filme erótico. Duas mulheres e um homem que aparenta ter mais de cinquenta anos praticam Ménage à trois. Isso, de alguma forma, faz Léo broxar. Ele está com o rosto corado e o seu pênis está deprimido claramente.
Não posso acreditar que não cheguei lá. E muito menos que ele não chegou lá.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

03 de novembro de 1996, Arizona, EUA

- Vem cá, minha coisa fofa! – digo venerando Ellie. Estou apaixonada por essa cadela! Ela é uma Norfolk Terrier. A cor de seus pêlos é uma mistura de castanho e preto.  Saio da agropecuária com ela nas mãos. Bob – o meu falecido pastor-alemão -, se foi há duas semanas. Não aguentei a solidão.
Ponho Ellie no banco de trás do meu carro e dou início a minha passagem pela pista mais entediante e movimentada do estado de Arizona. Estive em um bar para tomar um litro de água há uma hora e a televisão me informou que fazia 35° com a sensação térmica de 40°. Minha boca está seca e o meu corpo todo molhado de suor. As montanhas rochosas e as plantas exóticas e naturais ao redor enchem os meus olhos de beleza.
 Após trinta minutos dirigindo, um cheiro denuncia algo que fede vindo do banco de trás. Ao me virar, vejo que Ellie fez cocô sobre o banco e parece estar cansada e desanimada devido ao calor que sugou todas as energias que restavam em seu corpo.
- Não, não, não, Ellie... Por que você não aguentou? – pergunto a encarando -, mas vem cá, vamos limpar essa bagunça – digo tentando agarrá-la sem tocar em seu bumbum.
Ela abre os olhinhos parecendo um pouco constrangida e arrependida.
- Mamãe vai te ajudar – conforto-a.
                Ao estacionar o carro na garagem da minha casa, Ellie me lambe. Tive que carregá-la ao meu lado no carro. Fiquei com dó, além do quê, ela é um amor. Passo pelo jardim – todas flores estão lindas. É primavera. Estamos falando, especificamente, da minha estação preferida. Normalmente, sou uma mulher neurótica, mas nas doces primaveras da minha vida, costumo ser um pouquinho menos. A gente não é perfeito, né?  Então... arrumo um pote com água bem gelada para Ellie e deixo-a em frente à sua casinha azul.
Minha intuição me dizia que eu encontraria um cachorro na agropecuária e não uma cadela...
Ela não demora para começar a correr pelo quintal. Ao redor do meu jardim há uma cerca alta o suficiente para Ellie não passar e devastar como um furacão as minhas rosas e os meu lírios azuis e amarelos.  Lembro que ela precisa de um banho e eu também. Encho um balde com água e com cuidado ponho ela dentro. Ellie parece estar me agradecendo. No entanto, essa troca de carinho dura menos de um minuto. Minha cachorra, de forma apressada, sai correndo pelo pátio. Ela encontra um buraco no muro de madeira que separa a minha casa da casa do meu vizinho e desaparece.
Saio correndo desesperada atrás de Ellie. O muro tem apenas um metro de comprimento. E então, do nada, os meus olhos me obrigam a ver uma cena inédita e comprometedora: minha cadela está destruindo o jardim do vizinho. Diz para mim que você não está fazendo isso...– tento me consolar ao bufar de cansaço e decepção. Estou encrencada.
Sinto o meu rosto se avermelhar ao ver a cara do homem que, assustado, não crê no que ela está fazendo. Quase perco a noção da situação quando analiso-o – ele é uma coisa de outro mundo. Caminho nervosa, e o meu corpo insiste em me deixar mais suada do que eu estava há pouco, agora pelo fato de eu estar constrangida como nunca estive.
- Desculpa, Ellie quer conhecer a vizinha – me explico voltando os olhos para ela, porque até esse momento, estavam fixados nele. Ele tem jeito de ser tão meigo...
- Pelo amor de Deus, tira essa louca daqui! Ela parece estar com o diabo no corpo! – grita ele desesperado.
Ao ouvir esse sermão, me sinto chocada em relação à minha primeira impressão totalmente errada sobre ele. Esse desconhecido está bravo. Só falta vir para cima de mim, entretanto, ele ainda continua uma coisa de outro mundo. Por que eu falei o que eu acabei de falar? Ellie não precisa devastar com o jardim dos outros para conhecer a vizinhança!
- Ellie, pare agora com essa bagunça! – mando determinada. Ela, no entanto, não me obedece porque sabe que não consigo ficar brava com algo tão fofo. Decido então correr atrás dela, parecendo a tal “louca” que esse ogro gritou há pouco.  
- Essa “Ellie” tem problema de audição? – pergunta ele enfurecido.
Pego-a nos braços e a levo de volta ao meu pátio, respondendo com um tom grosseiro como se eu tivesse razão:
- Ela é só uma cachorrinha indefesa! Acho que é melhor você mandar consertar esse buraco no seu muro!
Ainda perplexa com a ferocidade de Ellie, lavo-a mais uma vez. Ela estava suja de terra. Sorrio quando vejo sua cabeça cheia de pedaços de flores. Ela acabou com o jardim daquele ogro. É isso aí, Ellie!
Após isso, a noite se instala aqui na cidade definitivamente. Estou jantando quando ouço a campainha chamar. Cansada do meu dia, me arrasto lentamente até a porta e digo sem vontade alguma: Já vou... Ao abri-la, encontro um papel e uma flor – ou melhor, o pedaço de uma flor vermelha sobre o chão.

De: Brigão
Para: Dona Mal-Humorada

Espero que a sua cadela louca não tenha mastigado essa folha. Meu nome é Léo.                                                                                                   Ps: Dê comida a Ellie porque do jeito que ela estava hoje no meu quintal, mais parece que você quer torturá-la. E trate de saber que ela me deu um bom prejuízo.


Diante desse insulto, me movo com muito ódio até o pátio desse “Léo”.  O encontro replantando novas mudas de plantas em seu quintal, e apesar de reconhecer que ele realmente fez algo amável me pedindo desculpa por uma confusão que na verdade começou por descuido meu, não me dou por vencida. Brigamos mais uma vez. E querendo ou não, ele continua uma coisa de outro mundo.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

- Magi...!!

Escuridão

Batida

Cacos de vidro

Sangue

Dor.

Em menos de um minuto sinto o braço de Léo me puxar com força. Antes de gesticular qualquer coisa, meu corpo é jogado para fora do carro. O estilhaço do vidro quebrando ao entrar em contato com o meu ombro me deixa surda por um momento. As minhas costas, os meus braços e o meu rosto agora ralados, ardem e me fazem desabar. Tudo acontece em uma fração de segundo.
Quando recobro a minha consciência, tento me levantar, mas caio. Minhas pernas não sustentam o meu corpo. A fumaça - do que deduzo rapidamente ser um jipe do outro lado da pista -, está pairando sobre os meus olhos. É difícil mantê-los abertos. É difícil me mover. Tento raciocinar melhor, e ao olhar para frente, acho que vejo um corpo sobre o chão e uma menininha pequena com um urso na mão. Ela chora pedindo por sua mãe e seu pai. Tento me aproximar, me ater aos cuidados que ela precisa, mas minha atenção é desviada ao ouvir o latido de Anny ao lado do nosso carro. Me pergunto se o que estou enxergando é exatamente o que os meus olhos querem ver. Deles caem lágrimas. Isso não poder ser real... Acho que vejo o vulto de Léo. Ele parece estar preso ao sinto de segurança e não entendo como fui jogada com tanta violência para fora do carro. Parece que posso sentir a sua respiração abalada e toda a sua dor. Acho que ele está gritando, chorando, não sei... Minha cabeça dói. Eu preciso de ajuda.  Essas imagens e essa realidade cinzenta invadem com força avassaladora a minha mente e eu desmaio.
Ճ

- Léo? Léo!!!!! – grito ao girar o meu pescoço para o lado na tentativa de encontrá-lo. Porém, ele não está aqui... Em poucos segundos, o meu corpo é acolhido pela dor.
Mamãe e papai parecem estar em pé ao meu lado. Estou zonza.
Léo... Você está bem?
Você está vivo?
Léo...
- Cadê o Léo? Preciso ver ele!
Mamãe para ao meu lado e encosta sua mão quente e macia em meu cabelo. Me fita por poucos segundos e com um sorriso triste e afetado pelo meu estado, me diz:
- Magie, Léo está em outro quarto. Você precisa melhorar.
- É, minha filha... – continua papai com lágrimas presas em seus olhos.
- Você sofreu uma parada cardíaca durante sua vinda para cá – enfatiza ao segurar a minha mão.
Uma dor profunda domina a minha cabeça. Ela está com um inchaço. Os arranhões em meu rosto iniciam uma sessão de tortura ao arderem. Insisto, mas meus pais me detém.
- Magie, eu sei que você vai chorar, vai sentir falta dele, mas eu preciso que você melhore! – ordena papai com um tom autoritário na voz.

Por um momento o odeio. O odeio pelo fato de ele ter razão. A partir dessa proibição em ver Léo, me agarro às minhas lembranças...

sábado, 23 de novembro de 2013

- Ele se comportou hoje – diz Léo enquanto dirige.
- Amor, tenho uma surpresa para você – revelo apertando a sua coxa.
- Mais um cachorro? – pergunta em tom de brincadeira.
- Oops – tapo a minha boca.
- Magie, é brincadeira, não é?... – indaga incrédulo.
- Você ama o Anny, admite... – observo em voz baixa com brilho nos olhos.
- Amo, mais amo a nossa privacidade também.
- Amor, tenta me entender... Anny incomoda às vezes. Você sabe que eu o amo, mas você é importante para mim – ressalta de modo doce. Sinto sinceridade em sua resposta.
Léo me deixa sem palavras. Ele me faz arrepiar cada parte do meu corpo. Ele tem olhos e cabelos castanhos, lembrando Ryan Reynolds. O jeito que ele me convence, a boca dele, o olhar dele. É coisa de outro mundo.
- Ok, ok, amor... Acho que vou doar Mika para alguém... – concluo um pouco deprimida.
- Já tem até nome, né? – reage apertando o meu nariz.
Passando pela sétima avenida, o céu vai tornando-se mais cinzento, não transparecendo cinco horas de tarde. E tocando Say you, say me de Lionel Richie, dobramos uma das muitas esquinas da cidade. Vivo em um condomínio com Léo. Quanto mais nos aproximamos da nossa casa, mais esfria. Léo continua firme ao volante.  Me viro para trás para ver Anny.
Estou com uma cara de dó por estar com Mika na cabeça. Se eu pudesse, eu te buscava, cadelinha – me consolo.
- Parece que você está com sono, amor.
- Estou mesmo. O dia foi agitado. Bastante, na verdade – respondo.
-Pelo menos você pode dormir sem ter pesadelos – diz ele abruptamente.
- Acha que eu vou dormir e te deixar falando sozinho?
- Não deveria.
- Mas eu não vou, seu bobo.
- É o mínimo que pode fazer – responde ele um pouco sério –, afinal, você não vem tendo pesadelos como eu ultimamente.
                Ele lança essas palavras ao ar e não diz mais nada. Anny estranhamente começa a rosnar. Por algum motivo, não gosto do que ele acabou de dizer.
- Por que você está dizendo isso, amor? – pergunto inocentemente.
                Ele não responde. Gira o rosto para mim e me encara. Um brilho evasivo está invadindo os seus olhos. Anny começa a latir.
- É difícil vencer pesadelos. E é muito pior quando ninguém te ajuda. Fiquei espantado por descobrir a verdade quando Colbey me encontrou de manhã. Engraçado que eu nunca poderia suspeitar de você – diz ele tentando dar um sorriso brincalhão.
O meu coração se aperta. Anny late cada vez mais alto. Está com medo de alguma coisa. 
- Eu não to gostando do que você está dizendo – respondo da defensiva.
Léo normalmente brinca bastante com as coisas.
- Quer que eu diga o quê? Que estou com dó de você? – pergunta de modo estúpido.
                O meu coração se aperta de repente. Ofendida, revido:
- Parece que nem você está para piadas hoje. Eu vou dormir um pouco. Depois conversamos.
Ele lança uma risada doentia que me assusta. Anny o estranha mais uma vez. Ele rosna com ferocidade, como se Léo tivesse outra pessoa em seu corpo.
- Calma, meu amor. Não precisa latir e nem rosnar. Tudo bem?...
                Realmente fico desconfiada com a atitude do meu cão. Ele nunca fez isso. O acaricio na esperança de tranquilizá-lo.
- Para com esse draminha todo, Magie. Agora eu sei que você é como Colbey. É uma mentira.

                Não encontro palavras para uma resposta. Ferida com o que ele acabou de dizer, viro para trás nervosa. Na esperança de não encará-lo, mando Anny parar de latir. Porém, aquilo não mudaria o que estava prestes a acontecer.

Capítulo 1: Pesadelos



Júnior’s Cafeteria, 02 de julho de 1999, São Francisco, Califórnia

- Magie, filha, está muito frio. Você tem um casaco? Eu posso passar aí na confeitaria e te levar um se você não tiver - pergunta minha mãe com um tom carinhoso em sua voz.
- Eu trouxe um casaco, mãe. E também, estou bebendo bastante café para me manter acordada... – tento confortá-la.
- Magie, Magie!  – ouço uma voz que vem do além. Pelo tom deve ser o meu pai.
- Tenho uma surpresa para você. E a dica é: veio da China e tem quatro patas – diz ele animado.
- Uau, pai! Você me acha tão solitária assim? Mais um cachorro? – sou pega de surpresa.
- Não, não... Agora é uma cadela, Magie. Posso devolvê-la se não quiser... Animais também têm sentimentos... – dramatiza tentando me convencer.
- Papai, você sabe que eu não resisto! – me dou por vencida.
- É da raça Akita! Já tem nome, e o endereço será a sua casa, não é? – pergunta realçando a minha decisão de tornar a cadela minha. Fico reflexiva por um momento. Anny é o bastante para me dar companhia, além do quê, ele já faz muita bagunça sozinho. Espero que Léo me ame a tal ponto.
- Ok, ok, pai. Então você tem um nome para ela?...– pergunto receosa. Papai sabe que eu prefiro escolher os nomes para os meus cachorros.
- É Mika, filha! – alerta a minha mãe.
- A Mika é uma mistura de Ellie, Bob e Hewie. Você precisa ver! – diz ele praticamente me obrigando, relembrando três dos sete cachorros que já tive.
- Pai, vou buscá-la mais tarde. Preciso me arrumar para ir para casa. Amo vocês – declaro amorosa. Tenho adoração por cães.
Entro na cafeteria – esse é o meu local de trabalho. Durante um ano trabalhei no caixa, porém, comuniquei ao Chris – o dono do estabelecimento -, que precisava acabar com aquela rotina, me tornando garçonete definitivamente. O “Júnior” que dá nome à cafeteria é o nome do filho de cinco anos dele. Ele é um amor.

Em menos de vinte minutos o meu expediente acaba. Deixo o meu cabelo respirar ao soltá-lo sobre os meus ombros. Me dirijo ao vestiário e retiro o meu uniforme, o deixando dentro do meu armário depois de dobrá-lo. Ao passar pelo corredor, me despeço dos meus colegas. Ao sair para a rua, o vento nada agradável bate contra o meu corpo, me fazendo tremer. Sem dificuldade, encontro o carro de Léo – ele não precisa buzinar já que ver Anny tentando chegar ao banco da frente já basta. Sorrio. Eles são os donos da minha vida.
Anny tenta a todo custo pular para fora do carro ao me ver chegando. Eu abro os meus braços para abraçá-lo. Léo me censura com um olhar bravo e sexy, me fazendo lembrar que o nosso cachorro já destruiu um pneu do carro e o arranhou centenas de vezes. Faço beicinho para ele e o beijo ao sentar ao seu lado. Anny fica constrangido por não ter recebido o meu abraço, e logo começa a me lamber. Ciumento