03 de novembro de 1996, Arizona, EUA
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Vem cá, minha coisa fofa! – digo venerando Ellie. Estou apaixonada por essa
cadela! Ela é uma Norfolk Terrier. A cor de seus pêlos é
uma mistura de castanho e preto. Saio da
agropecuária com ela nas mãos. Bob – o meu falecido pastor-alemão -, se foi há
duas semanas. Não aguentei a solidão.
Ponho Ellie no banco de trás do meu carro e dou início
a minha passagem pela pista mais entediante e movimentada do estado de Arizona.
Estive em um bar para tomar um litro de água há uma hora e a televisão me
informou que fazia 35° com a sensação térmica de 40°. Minha boca está seca e o
meu corpo todo molhado de suor. As montanhas rochosas e as plantas exóticas e
naturais ao redor enchem os meus olhos de beleza.
Após trinta
minutos dirigindo, um cheiro denuncia algo que fede vindo do banco de trás. Ao
me virar, vejo que Ellie fez cocô sobre o banco e parece estar cansada e
desanimada devido ao calor que sugou todas as energias que restavam em seu
corpo.
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Não, não, não, Ellie... Por que você não aguentou? – pergunto a encarando -, mas
vem cá, vamos limpar essa bagunça – digo tentando agarrá-la sem tocar em seu
bumbum.
Ela abre os olhinhos parecendo um pouco constrangida e
arrependida.
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Mamãe vai te ajudar – conforto-a.
Ao estacionar o carro na garagem
da minha casa, Ellie me lambe. Tive que carregá-la ao meu lado no carro. Fiquei
com dó, além do quê, ela é um amor. Passo pelo jardim – todas flores estão
lindas. É primavera. Estamos falando, especificamente, da minha estação
preferida. Normalmente, sou uma mulher neurótica, mas nas doces primaveras da
minha vida, costumo ser um pouquinho menos. A gente não é perfeito, né? Então... arrumo um pote com água bem gelada
para Ellie e deixo-a em frente à sua casinha azul.
Minha intuição me dizia
que eu encontraria um cachorro na agropecuária e não uma cadela...
Ela não demora para começar a correr pelo quintal. Ao
redor do meu jardim há uma cerca alta o suficiente para Ellie não passar e
devastar como um furacão as minhas rosas e os meu lírios azuis e amarelos. Lembro que ela precisa de um banho e eu
também. Encho um balde com água e com cuidado ponho ela dentro. Ellie parece
estar me agradecendo. No entanto, essa troca de carinho dura menos de um
minuto. Minha cachorra, de forma apressada, sai correndo pelo pátio. Ela
encontra um buraco no muro de madeira que separa a minha casa da casa do meu
vizinho e desaparece.
Saio correndo desesperada atrás de Ellie. O muro tem
apenas um metro de comprimento. E então, do nada, os meus olhos me obrigam a
ver uma cena inédita e comprometedora: minha cadela está destruindo o jardim do
vizinho. Diz para mim que você não está fazendo isso...– tento me consolar ao
bufar de cansaço e decepção. Estou encrencada.
Sinto o meu rosto se avermelhar ao ver a cara do homem
que, assustado, não crê no que ela está fazendo. Quase perco a noção da situação
quando analiso-o – ele é uma coisa de outro mundo. Caminho nervosa, e o meu corpo
insiste em me deixar mais suada do que eu estava há pouco, agora pelo fato de
eu estar constrangida como nunca estive.
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Desculpa, Ellie quer conhecer a vizinha – me explico voltando os olhos para
ela, porque até esse momento, estavam fixados nele. Ele tem jeito de ser tão
meigo...
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Pelo amor de Deus, tira essa louca daqui! Ela parece estar com o diabo no corpo!
– grita ele desesperado.
Ao ouvir esse sermão, me sinto chocada em relação à
minha primeira impressão totalmente errada sobre ele. Esse desconhecido está
bravo. Só falta vir para cima de mim, entretanto, ele ainda continua uma coisa de outro mundo. Por que eu falei o
que eu acabei de falar? Ellie não precisa devastar com o jardim dos outros para
conhecer a vizinhança!
-
Ellie, pare agora com essa bagunça! – mando determinada. Ela, no entanto, não
me obedece porque sabe que não consigo ficar brava com algo tão fofo. Decido
então correr atrás dela, parecendo a tal “louca” que esse ogro gritou há pouco.
-
Essa “Ellie” tem problema de audição? – pergunta ele enfurecido.
Pego-a nos braços e a levo de volta ao meu pátio,
respondendo com um tom grosseiro como se eu tivesse razão:
-
Ela é só uma cachorrinha indefesa! Acho que é melhor você mandar consertar esse
buraco no seu muro!
Ainda perplexa com a ferocidade de Ellie, lavo-a mais
uma vez. Ela estava suja de terra. Sorrio quando vejo sua cabeça cheia de pedaços
de flores. Ela acabou com o jardim daquele ogro. É isso aí, Ellie!
Após isso, a noite se instala aqui na cidade definitivamente.
Estou jantando quando ouço a campainha chamar. Cansada do meu dia, me arrasto
lentamente até a porta e digo sem vontade alguma: Já vou... Ao abri-la, encontro um papel e uma flor – ou melhor, o
pedaço de uma flor vermelha sobre o chão.
De:
Brigão
Para:
Dona Mal-Humorada
“Espero que a
sua cadela louca não tenha mastigado essa folha. Meu nome é Léo. Ps: Dê comida a Ellie porque do jeito que ela estava hoje
no meu quintal, mais parece que você quer torturá-la. E trate de saber que ela
me deu um bom prejuízo.
Diante
desse insulto, me movo com muito ódio até o pátio desse “Léo”. O encontro replantando novas mudas de plantas
em seu quintal, e apesar de reconhecer que ele realmente fez algo amável me
pedindo desculpa por uma confusão que na verdade começou por descuido meu, não
me dou por vencida. Brigamos mais uma vez. E querendo ou não, ele continua uma coisa de outro mundo.
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